Eu - Noite infinda, onde estou?
Noite - Tão pouco posso te revelar, mas, tu bem sabes que estás na fronteira da loucura.
Eu - Que farei eu agora?
Noite - Implore! Admita como és.
Eu - Um pó medíocre.
Noite - Então "aprenda a obedecer, pó soberbo, aprenda, barro e lodo, a humilhar-se e meter-se debaixo dos pés de todos"
Eu - Deus, seja misericordioso com a minh'alma.
Quantas paixões levianas e mentiras temíveis
Revelam-se tiranas, levando minha calma!
Elevando a angústia que traz dores terríveis.
Considero passado? A agonia deixa sua esteira.
Não tenho paz genuína, não tenho pleno olvido
Meu bom espírito implora em condição rasteira:
Escutai o alto e transcendente clamor aguerrido!
Dúbio ser inconstante, como haverei de lutar?
A ignorância ergueu altar fixo no meu interior
Embaçou-se o mundo e só enxergo o penar.
Aberrações de pensamentos permeiam a dor,
Meu intelecto insano ambiciona a mente sanar
e meu coração se condói, apetecido do Amor.
Noite - Mas não és digna do Amor e nem da consolação.
Eu - "Ainda que pudesse derramar um mar de lágrimas, nem por isso seria digno de Vossas consolações".
Noite - É falsa a tua contrição! Ainda estás a beira da insanidade.
Eu - Não me acuse, noite astuta. Tu és apenas o cenário de minha angústia.
Noite - Silenciarei e de certo ficarás incessantemente torturada até o dia em que a natureza ficará paralisada... "Judex ergo cum sedebit, quidquid latet apparebit, nil inultum remanebit".
Eu - "Esperai-me um pouco para que desafogue a minha dor antes que vá habitar nessa terra tenebrosa e coberta das sombras da morte".
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